sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012


                                                      COMER OU NÃO COMER CARNE?
Uma abordagem ética e doutrinária.
O espírita deve se tornar vegetariano?
Qual deveria ser a relação entre os animais e o homem?
Nossa alimentação exige o sacrifício dos animais? Em “Missionários da Luz”– cap. 4. “Vampirismo”, André Luiz oferece-nos maravilhosa lição, abrindo o nosso entendimento a respeito do assunto. É Alexandre, seu instrutor no momento, quem esclarece: “... a nossa inteligência, tão fértil na descoberta de comodidade e conforto, teria recursos de encontrar novos elementos e meios de incentivar os suprimentos protéicos ao organismo, sem recorrer às indústrias da morte”.
Acho essa lição maravilhosa porque ela nos impulsiona, nos motiva a conquistar mais um passo, em nossa caminhada evolutiva. Somos advertidos de que nossa inteligência já tem recursos de buscar o suprimento protéico de que necessitamos, em outras fontes que não mediante o sacrifício da vida dos animais. Não precisamos mais nos acomodar à antiga noção de que a nossa saúde não se manteria sem o consumo de carne. No próprio Livro dos Espíritos, 723 encontramos a questão: – “A alimentação animal, para o homem, é contrária à lei natural?” Na resposta, lemos:
– “Na vossa constituição física, a carne nutre a carne, pois do contrário o homem perece. A lei de conservação impõe ao homem o dever de conservar as suas energias e a sua saúde, para poder cumprir a lei do trabalho. Ele deve alimentar-se, portanto, segundo a sua organização”.
De fato, a alimentação humana não pode prescindir de proteínas, ácidos graxos essenciais (elementos encontrados em óleos e gorduras), açúcares, vitaminas e minerais. Temos a errônea noção de que só a carne é rica em proteínas.
Mas, elas também podem ser encontradas em outras fontes como ovos e leite, de origem animal, além de uma infinidade de vegetais.
Uma dieta variada em itens vegetais (frutas, verduras, grãos) já atende bastante nossas necessidades. Se somarmos a isso a ingestão de alguns produtos de origem animal (leite, seus derivados e ovos), então as exigências de nosso corpo, em termos de aporte nutricional, estarão completamente satisfeitas.
É o próprio Livro dos Espíritos, 720 – a que nos leva nessa direção: - “Há privações voluntárias que sejam meritórias?” Resposta: – “Sim: a privação dos prazeres inúteis, porque liberta o homem da matéria e eleva sua alma.
Então, se podemos conservar as nossas energias e a nossa saúde, privando-nos voluntariamente do consumo de carne, isso não é meritório? Se está ao nosso alcance poupar a vida e o sofrimento de outros seres vivos, porque não fazê-lo?

                                                                   INFERIORES E SUPERIORES
André Luiz, em Missionários da Luz - cap. 4 “Vampirismo” expõe sua estranheza à infeliz condição de “muita gente na terra que vive à mercê de vampiros invisíveis”. Indaga-o, então: - “E a proteção das esferas mais altas? E o amparo das entidades angélicas, a amorosa defesa de nossos superiores?”

A resposta de Alexandre, o instrutor, não tarda: - “André, meu caro... Em todos os setores da Criação, Deus, nosso Pai, colocou os superiores e os inferiores para o trabalho de evolução, através da colaboração e do amor, da administração e da obediência... no capítulo da indiferença para com a sorte dos animais, da qual participamos no quadro das atividades humanas, nenhum de nós poderia, em sã consciência, atirar a primeira pedra. Os seres inferiores e necessitados do Planeta não nos encaram como superiores generosos e inteligentes, mas como verdugos cruéis.
Se não protegemos e nem educamos aqueles que o Pai nos confiou, como germes frágeis de racionalidade nos pesados vasos do instinto; se abusamos largamente de sua incapacidade de defesa e conservação, como exigir o amparo de superiores benevolentes e sábios, cujas instruções mais simples são para nós difíceis de suportar, pela nossa lastimável condição de infratores da lei de auxílios mútuos?”
Vale à pena revermos esse trecho em que Alexandre fala a André Luiz: “– Porque tamanha estranheza? – perguntou o cuidadoso orientador – e nós outros, quando nas esferas da carne? Nossas mesas não se mantinham à custa das vísceras dos touros e das aves? A pretexto de buscar recursos protéicos, exterminávamos frangos e carneiros, leitões e cabritos incontáveis. Sugávamos os tecidos musculares, roíamos os ossos. Não contentes em matar os pobres seres que nos pediam roteiros de progresso e valores educativos, para melhor atenderem à Obra do Pai, dilatávamos os requintes da exploração milenária e infligíamos a muitos deles determinadas moléstias para que nos servissem ao paladar, com a máxima eficiência. O suíno comum era localizado por nós, em regime de ceva, e o pobre animal, muita vez à custa de resíduos, devia criar para nosso uso certas reservas de gordura, até que se prostrasse, de todo, ao peso de banhas doentias e abundantes.
Colocávamos gansos nas engordadeiras para que hipertrofiassem o fígado, de modo a obtermos pastas substanciosas destinadas a quitutes que ficaram famosos, despreocupados das faltas cometidas com a suposta vantagem de enriquecer os valores culinários. “Em nada nos doía o quadro comovente das vacas-mães, em direção ao matadouro, para que nossas panelas transpirassem agradavelmente”.
Aí fica a sugestão do inspirado mentor Alexandre para que pensemos no assunto: “Abandonando as faixas de nosso primitivismo, devemos acordar a própria consciência para a responsabilidade coletiva. A missão do superior é a de amparar o inferior e educá-lo. E os nossos abusos para com a Natureza estão cristalizados em todos os países, há muitos séculos. Não podemos renovar os sistemas econômicos dos povos, dum momento para outro, nem substituir os hábitos arraigados e viciosos de alimentação imprópria, de maneira repentina. Refletem eles, igualmente, nossos erros multimilenários. Mas, na qualidade de filhos endividados para com Deus e a Natureza, devemos prosseguir no trabalho educativo, acordando os companheiros encarnados, mais experientes e esclarecidos, para a nova era em que os homens cultivarão o solo da Terra por amor e utilizar-se-ão dos animais, com espírito de respeito, educação e entendimento...
inteligência deles,
não é demais que, por força da animalidade que conserva desveladamente, venha a cair a maioria das criaturas em situações enfermiças pelo vampirismo das entidades que lhes são afins, na esfera invisível”.
                                                               OS RECURSOS DO ESTÁBULO
E se optarmos por buscar os recursos protéicos de nossa alimentação, poupando a vida dos animais, é o próprio Alexandre quem aconselha: -... o aumento dos laticínios, para enriquecimento da alimentação, constitui elevada tarefa ...” E completa com uma assertiva sobre a qual venho pensando muito e cujo real significado de tão grande, sinto talvez não tenha ainda condições de apreender: – “... porque tempos virão, para a humanidade terrestre, em que o estábulo, como o lar, será também sagrado”. Não é fácil entender o que Alexandre está nos dizendo. Vejamos! Constitui elevada tarefa o aumento da produção de laticínios, para enriquecimento da alimentação humana. De fato, o leite, os queijos, o creme de leite, a nata, etc., são fontes riquíssimas não apenas de proteína mas, de outros elementos importantes em nossa nutrição. Portanto, recorrer aos chamados produtos de origem animal, como é o caso do leite e de seus derivados, seria perfeitamente válido. Entretanto, vem a contraparte - “o estábulo, como o lar, será também sagrado”.
Certamente ainda teremos de evoluir muito, para conseguir esse nível de entendimento e de libertação de nosso egocentrismo e egolatria. Tomara chegue mesmo esse dia, porque hoje, como já disse alguém, muito sofrimento dos animais ainda acompanha o nosso copo de leite. Infelizmente, em nosso meio, para que as criações de gado leiteiro sejam economicamente viáveis, a maioria dos bezerros machos são descartados, sendo encaminhados para os matadouros; os que permanecem (a maioria fêmeas) são imediatamente, após o parto, separadas de suas mães, entre berros de ambas as partes; as vacas matrizes (vacas parideiras) são submetidas a intenso processo de seleção genética, para que se transformem em verdadeiras máquinas produtoras de leite, mal podendo se movimentar com seus enormes úberes. Quem duvidar é só dar um pulo nesses concursos de produção leiteira e conferir o que anda fazendo com as pobres vacas!
Há pouco tempo, ao comentar esses fatos, tive a feliz notícia de que um veterinário de Minas Gerais está conseguindo viabilizar uma criação de gado leiteiro, de maneira humanitária, como se diz, com razoável obtenção de lucros.
Seja Benvindo!
Também quanto à obtenção de ovos das galinhas, já começam a existir meios alternativos de criação das aves, que não o de ficarem confinadas e apertadas em restritas gaiolas nas quais não conseguem dar sequer um passo! Além disso, sofrem a famosa “debicagem”, isto é, corte de parte de seu bico por lâmina incandescente, do que resulta em processo inflamatório com edema inclusive da região dos olhos. E para que produzam tudo o que possam e mais um pouco, no final do período de postura são submetidas à chamada “muda forçada”, ou seja, mediante restrição alimentar, provoca-se a queda de suas penas e severo emagrecimento. Em seguida a esse estresse, são submetidas novamente a alimentação normal, do que resulta uma postura de melhor índice.
Nessas criações alternativas a que me referi, as aves são criadas naturalmente, soltas, à vontade, ciscando, comendo e botando ovos... Felizmente.
Parte desses ovos é aproveitada para consumo na alimentação humana, e outra parte, de ovos galados (fecundados) é orientada para o setor de reprodução das aves.
Quem sabe, aos poucos, vamos aprendendo a respeitar aqueles que nos ajudam a nos mantermos vivos e saudáveis. Nesse sentido é que aceito a citação de Erasto, no Livro dos Médiuns 2a - XXII. 236: “Deus pôs os animais ao vosso lado como auxiliares para vos alimentarem, para vos vestirem e vos ajudarem...”
Entendo que os animais podem nos auxiliar em nossa alimentação, não com o sacrifício de suas vidas (aliás, isso não consta do texto de Erasto), mas, com os produtos que possam nos ceder, como o leite e os ovos. Também podem nos auxiliar em nossas vestimentas, sem que lhes arranquemos a pele, mas, por exemplo, valendo-nos de sua lã, mediante tosquia adequada. Em uma camiseta com a figura de um filhote de raposa li a sugestiva frase: “Su madre tien abrigo de piei? De la mia, lo arrancaron”. De fato eles podem nos auxiliar de muitas maneiras.
Que o digam muitos idosos e solitários cuja única companhia, sempre fiel e amiga, é a de seu cão ou gato.
Após toda essa reflexão, pergunto novamente ao leitor: comer ou não comer carne?
                                                                             
Dra. Irvênia Di Santis Prada

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