segunda-feira, 26 de março de 2012

A espiritualidade dos animais


A espiritualidade dos animais 
EURÍPEDES KÜHL
Cavalo
Gratificante que esse tema, até pouco tempo tão deslembrado, esteja agora visitando e instigando a mente de tantas pessoas, não necessariamente espíritas, mas, ao menos, espiritualistas, querendo saber o que acontece com os animais depois que morrem...




De minha parte e dentro do que conheço do Espiritismo, respondo a esse questionamento retrocedendo no tempo, partindo da criação dos seres vivos:


  • Deus, “[...] a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”,1 cria sem cessar. Uma de suas criações é o Princípio Inteligente (PI), representado pela mônada2 que verte do “Princípio Inteligente Universal” e que, contemplada com a eternidade(!),enceta longa rota evolutiva, estagiando inicialmente no mineral, a seguir no vegetal, depois no animal, daí ao hominal e, finalmente, no angelical;
  • para essa extensa fieira de experiências, a fim de atuar sobre a matéria, o Princípio Inteligente utiliza “o concurso de uma força, a que se conveio em chamar fluido vital” e em todas ele estará revestido “de um invólucro invisível, intangível e imponderável [...]”. Esse invólucro denomina-se “perispírito” (apesar de sua materialidade, é bastante eterizado). É formado de matéria cósmica primitiva – o fluido universal;3
  • nos três primeiros estágios citados, a pouco e pouco cada PI irá se individualizando, percorrendo infinitos ciclos evolutivos, num e noutro plano da vida (o espiritual e o material), durante os quais será mantido, monitorado e guiado por Inteligências Siderais, responsáveis pela vida, por delegação divina; – nesses três reinos o PI gradativamente irá sendo equipado, por aqueles Protetores, de instinto e “automatismos fisiológicos”,4representando poderosos equipamentos para possibilitar-lhe a sobrevivência, nos rudes crivos que terá de superar, até humanizar-se, quando então, ainda com tais condicionamentos automáticos (que possibilitam o metabolismo), estará equipado de livre-arbítrio, inteligência contínua e consciência;
  • à medida que ocorre a sua individualização, na extensa rota de experiências, no reino animal, o PI já é uma alma, “porém inferior à do homem”;5 assim sendo, é lícito deduzir que revestindo essa alma há um corpo astral – o perispírito –, sutil, mas ainda material (como já registramos) e sempre mais grosseiro que o do homem. Tratando-se agora dos três reinos e, em particular, da morte dos animais, Kardec perguntou6 e obteve respostas claras, não passíveis de segunda interpretação. Resumindo essas respostas: minerais só têm força mecânica (não têm vitalidade);
  • NOTA: Quer me parecer que essa força é a que mantém a agregação do átomo, que acompanhará as várias vestimentas físicas do PI em toda a vasta fieira de experiências terrenas.
  • vegetais são dotados de vitalidade e têm vida orgânica (nascem, crescem, reproduzem e morrem), além de serem dotados de instinto rudimentar;
  • animais têm instinto apurado e inteligência fragmentária, além de linguagem própria de cada espécie; têm um princípio independente, que sobrevive após a morte; esse princípio independente, individualizado, algo semelhante a uma alma rudimentar, inferior à humana, dá-lhes limitada liberdade de ação(apenas nos atos da vida material); assim, pois, não têm livre-arbítrio; essa “alma”, não sendo humana, não é um Espírito errante (aquele que, no intervalo das encarnações, pensa e age pelo livre-arbítrio);
  • ao morrer, cada animal é classificado pelos Espíritos disso encarregados; enquanto aguardam breve retorno às lides terrenas, via reencarnação, são mantidos em vida latente e sem contato, uns com os outros; ao serem reconduzidos à nova existência terrena são alocados em habitats de suas respectivas espécies.
Aqui encerro o meu (incompleto) resumo do que consta em O Livro dos Espíritos. Respeitáveis autores espíritas, desencarnados, aduziram informações sobre esse tema.André Luiz, em particular, narra que vários animais são encontrados na Espiritualidade, como por exemplo aves, cães, cavalos, íbis viajores, muares. Alguns são “escalados” para tarefas diversificadas (cães e cavalos, na maioria das vezes, como se vê, respectivamente, em duas obras:7
(Nosso Lar, cap. 33 e Os Mensageiros, cap. 28).
No capítulo XII da citada obra Evolução em Dois Mundos, André Luiz narra que, após a morte, os animais têm dilatado o seu “período de vida latente” no plano espiritual, caindo em pesada letargia, qual hibernação, de onde serão genesicamente atraídos às famílias da sua espécie, às quais se ajustam.
Essa informação considero-a fundamental para o entendimento de como os animais vivem no plano espiritual, tendo Kardec registrado que, após a morte, os animais são classificados e impedidos de se relacionarem com outras criaturas; André Luiz, agora, diz a mesma coisa, de outra forma, ao mencionar que os animais que não são destacados para alguma tarefa entram em hibernação e logo reencarnam.
Depreendo, assim, que na Espiritualidade os animais não utilizados em vários serviços não têm vida consciente,mas vegetativa, o que responde à pergunta de como vivem lá: sem qualquer relacionamento, uns com os outros. Assim, não ha vendo ação de predadores inexistem presas; mantidos em hibernação, não se alimentam, não brigam, não reproduzem, não se deslocam.
Como se nota na literatura espírita, as referências sobre animais na Espiritualidade reportam-se, na maioria das vezes, a animais que podem ser denominados biológica e espiritualmente “superiores”. Raríssimas são as notas sobre aves, peixes, insetos ou sobre as incontáveis espécies extintas no Planeta. Igualmente escassas, as anotações sobre a fantástica transição do animal (quais espécies animais?) para o hominal – o “elo perdido”, dos biólogos...
Sem nos esquecermos da instigante citação, feita de relance por André Luiz, em Nosso Lar, em se referindo à existência, na Espiritualidade, dos “parques de estudo e experimentação”. O fato é que existem, sim, tais anotações, porém, o espaço disponível para meu texto não comportaria mais informações sobre a espiritualidade dos animais.

1 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 90. ed. Rio de Janeiro: FEB. Questão 1.
2 Mônada: organismo muito simples, que poderia ser considerado uma unidade orgânica. “Mônada celeste” seria a célula espiritual, manifestando-se em “o princípio inteligente (PI) em suas primeiras manifestações”, ou seja, na primeira fase de evolução do ser vivo, “os germes sagradosdos primeiros homens”.
3 DELANNE, Gabriel. A evolução anímica. 12. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007. “Introdução”, p. 15-16.
4 XAVIER, Francisco C.; VIEIRA, Waldo. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. Ed. Especial. Rio de
Janeiro: FEB, 2003. Primeira Parte, cap. 4, p. 39.
5 KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 90. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2007. Questão 597/597-a.
6 ______. Parte segunda, cap. XI, “Dos três reinos”.
7 Ambas as obras de André Luiz, autor espiritual, com psicografia de Francisco Cândido Xavier. Ed. FEB.
Fonte: Reformador - Fevereiro 2008

sexta-feira, 23 de março de 2012

Por que há espíritas vaidosos e arrogantes?


Dúvidas dos leitores – Por que há espíritas vaidosos e arrogantes?


Gostaria de saber por que alguém que estuda, que pratica e sempre comparece às reuniões Espíritas, pode acabar caindo na vaidade, na arrogância de achar que é superior às outras pessoas? Como isso poderia acontecer, se ela estuda todos os preceitos do espiritualismo?
Resposta:
O conhecimento das verdades espirituais por si só não basta.
Jesus nos ensinou: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.”
Veja que o ensinamento é simples, mas praticá-lo em sua essência é um grande desafio para toda a humanidade. Independente da religião, todos fomos criados e destinados a um mesmo fim: a perfeição moral. E esta se dará somente através da vivência prática destes ensinamentos sublimes. Mas tal perfeição, segundo a visão espírita, não é alcançada em apenas uma existência. Ela só é alcançada através das reencarnações sucessivas, através das quais os homens se aperfeiçoam mediante existências distintas recheadas de provas que os ajudam a lapidar o seu caráter. Num entremeado de bem aventuranças e sofrimentos, o homem, vivendo múltiplas vidas, tem diversas chances de se tornar melhor e mais próximo de cumprir em sua plenitude os mandamentos que o Mestre Jesus nos ensinou.
Portanto, não é o fato de ser espírita e de estudar a Doutrina que fará com que a pessoa se torne melhor. O progresso espiritual não advém simplesmente do conhecimento adquirido, mas sim da prática do amor e da caridade em todas as inúmeras oportunidades que a vida nos apresenta para isso. Seja no seio da família, no trabalho, entre amigos ou com inimigos.
Paulo de Tarso sintetizou esta verdade de uma forma muito simples e direta: “Fora da caridade, não há salvação”.
A Doutrina Espírita traz esclarecimentos adicionais ao Evangelho, elucida questões sobre a vida após a vida, enfatiza a importância da transformação moral, mas nada do que ela ensina é maior do que o direito e o dever que todos nós temos de cumprir os mandamentos divinos revelados pelo Mestre.
Allan Kardec, por esta mesma razão, nos alertou com muita sabedoria, que o Espírita não é melhor do que ninguém. É um ser humano comum que se esforça, muitas vezes com grande dificuldade, para superar suas imperfeições. Disse Kardec:“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.”
Assim, quando observares alguém que se diz espírita, não o julgue se é espírita com base nos seus erros humanos; atente sobretudo se há nele esforço sincero e abnegado de ser uma pessoa um pouquinho melhor a cada dia. O mesmo vale para o católico, o protestante, o muçulmano…
Espírita é, no fundo, um rótulo que não deveria ser exclusivo de uns poucos. Afinal, quando a ciência comprovar e divulgar a existência (e sobrevivência) do espírito do homem, as verdades espirituais valerão para todos. E aí perceberemos que cada um se encontra em um estágio de adiantamento moral.
Seja qual for a religião praticada hoje na Terra, em todas elas veremos pessoas mais ou menos adiantadas moralmente, o que, no fundo, nada tem a ver com a prática religiosa atual, e sim com o conjunto de experiências acumuladas ao longo de suas múltiplas existências regeneradoras.
Tenhamos, então, paciência e compreensão com os menos adiantados independente da fé que professem, pois a natureza não dá saltos.


MEDIUNIDADE - DOS COMPONENTES DE REUNIÕES MEDIÚNICAS


Para maior segurança no exercício da mediunidade e no trato com os médiuns e com os desencarnados que se comunicam nas reuniões mediúnicas, é importante que não só ao dirigente mas a todos os seus integrantes, conhecer, em linhas gerais, o que a Doutrina Espírita nos ensina acerca da prática mediúnica.

Assim procedendo seremos mais úteis aos que nos procuram em busca de socorro espiritual, aos desencarnados envolvidos em processos obsessivos, bem como a nós mesmos, em virtude de nossas necessidades de aprimoramento e edificação espiritual.

De todos os componentes das reuniões mediúnicas pede-se um mínimo de requisitos indispensáveis ao êxito da tarefa.

O dirigente, particularmente, é objeto de assistência especial dos amigos espirituais, assistência essa que cresce na proporção de seu preparo, dedicação, boa vontade e empenho em reformar-se interiormente.

Responsável pelos esclarecimentos aos Espíritos tendo forçosamente que lhe ocorrerem em determinados momentos da tarefa, pormenores desconhecidos, quanto às necessidades dos comunicantes.

Requisitos essenciais dos componentes de Reuniões Mediúnicas

a) Morais: Vivência evangélico-doutrinária, esforçando-se por exemplificar a mensagem cristã.

b) Doutrinários: Estudo evangélico e doutrinário; conhecendo pelo menos, os princípios básicos e gerais da Doutrina, as obras da Codificação e subsidiárias, bem como ter conhecimento das questões mediúnicas, do plano espiritual e de suas relações com o mundo físico.

c) Qualidades: Autoridade fundamentada no exemplo. Hábito de estudo e oração. Dignidade e respeito para com todos. Afeição sem privilégios. Brandura e firmeza. Sinceridade e entendimento. Conversação construtiva. Discrição e discernimento. Bondade e energia. Preparação constante. Assiduidade e pontualidade. Fé raciocinada.

d) Preparo: Estudo permanente para saber sempre mais. Desenvolvimento da intuição. Cultivo do tato psicológico, evitando atitudes e palavras violentas. Aliar raciocínio, sentimento, compaixão e lógica.

e) Segurança: A Espiritualidade Superior espera do dirigente o apoio fundamental da obra. Não lhe serão exigidas qualidades superiores às do homem comum, mas, diante dos desencarnados, dos médiuns e dos freqüentadores, as funções do dirigente são semelhantes às de um pai de família, devendo dispensar a todos os integrantes do conjunto a orientação e o amparo que um professor reto e nobre cultiva perante os alunos.

Do trato com os espíritos comunicantes

Na direção das reuniões, cultivar a humildade e vigilância no trato com os médiuns, com os espíritos comunicantes e com os freqüentadores em geral, encarnados e desencarnados, observando sempre:

  • Não forçar a comunicação do espírito, através deste ou daquele médium.
  • Deduzir, se possível, o sexo a que pertenceu a entidade em sua última existência, visando uma elucidação psicológica ideal.
  • Analisar, sem censura, os problemas de animismo (do médium) ou de mistificação (por parte dos espíritos) agindo criteriosamente.
  • Evitar, discutir, criticar, desprezar, desafiar, impor, ridicularizar, magoar ou alongar-se demais no diálogo com as entidades manifestantes.
  • Reconhecer que nem sempre pode ser desfeito o processo obsessivo, de imediato, sem prejuízos para encarnados e desencarnados.
  • Quando necessário e sob a assistência dos dirigentes espirituais usar a hipnose construtiva, visando a sonoterapia ou a projeção de quadros mentais para esclarecimento do comunicante.
  • Embora respeitando a necessidade do espírito de desinibição e desabafo, preservar sempre, a integridade do médium e a dignidade do recinto.
  • Frente a idéias fixas, buscar atingir o centro de interesses efetivos do espírito para que se lhe descongestione o campo mental.
  • Generalizar o esclarecimento que se proporciona às entidades, evitando, no entanto, dramatizar o problema de qualquer um.
  • Em casos excepcionais, recorrer à retrospecção mental, para auxiliar o esclarecimento da entidade sempre, porém, sob a supervisão dos amigos espirituais e sob a proteção de prece.
  • Vazar a conversação em termos claros, lógicos e edificantes, com paciência e apreço, evitando gírias, pilhérias,ironia ou irreverência.
  • Solicitar a cooperação íntima de todos, zelando pela boa ordem, harmonia e disciplina na reunião.
  • Atentar para a condição dos comunicantes, a fim de auxiliá-los mais eficientemente (Espíritos sofredores, que se comunicam pela primeira vez, reincidentes sistemáticos, companheiros de nosso próprio passado espiritual, recém-desencarnados, suicidas, malfeitores, sarcásticos, vampirizadores conscientes ou inconscientes, religiosos, inconformados, etc.).
  • Ao usar termos como: espírito, perispírito, desencarnado, evolução, livre-arbítrio, causa e efeito, reencarnação, plano espiritual, médium, mediunidade e outros, explicá-los, porque, comumente, os comunicantes não sendo espíritas, podem ignorar o seu real significado.
  • Evitar expressões como: "você já morreu" e outras, pois isso pode traumatizar e dificultar os esclarecimentos ao comunicante. Este pode chegar à mesma conclusão, por si mesmo, se o levarmos a analisar que os tempos são outros. Os costumes mudaram, por exemplo, eles conversam com determinadas pessoas e esses não os respondem. Entraram no recinto sem se utilizarem de portas ou janelas. Notam a presença de outras pessoas desencarnadas e de cuja "morte" tinham conhecimento, etc.
  • Quando o espírito se expressar por outro idioma, lembrar-lhe de que basta emitir as imagens de seu pensamento para comunicar as suas idéias. Se ainda assim encontrar dificuldades para isto, pedir a sua aproximação, através de outro médium, para facilitar a sua expressão de modo que todos possam entendê-lo.
  • Usar sempre a primeira pessoa do plural (nós). De fato, nunca estamos sós na tarefa de esclarecimento doutrinário.
  • Jesus falou com autoridade aos espíritos imundos. Nós não o podemos fazer. Assim, sejamos humildes, aconselhando a exemplificação das virtudes que ainda estamos nos esforçando por conquistar.
  • Respeitando sempre o livre arbítrio, lembremo-nos de que Deus, Jesus e os espíritos superiores, aguardam pacientemente a nossa renovação. Como impô-la aos outros? Respeito sem compactuar com práticas exóticas ou conceitos errôneos.
  • É de pouca importância o nome que hoje ostentam os espíritos comunicantes. Tratá-los sinceramente de irmãos.
  • Cultivando ainda reflexos dos padecimentos que culminaram com a sua desencarnação, supliquemos em prece a redução dos seus sofrimentos, com a intervenção de cooperadores espirituais e sua condução a locais de recuperação.
  • Quando necessário, solicitar a outros médiuns descrever o que percebem, colhendo assim, subsídios para maior aproveitamento do Grupo, podendo, excepcionalmente, um guia se manifestar para oferecer a sua ajuda mais direta no caso.
  • Evitar passes indiscriminados ou mãos estendidas sobre o médium na hora da comunicação.
  • Evitar comentários do que se passa nas reuniões, encarando com discrição os problemas de encarnados e desencarnados.
  • Cada comunicante deve receber o tratamento que corresponda aos seus sentimentos.
  • Conceder ao espírito o tempo necessário para que ele exponha seus problemas e dificuldades a fim de que, sentindo-lhe a necessidade, possa usar palavras e conceitos adequados.
  • Oferecer a intimidade fraterna aos comunicantes, aplicando o carinho da palavra e o fervor da prece na execução da enfermagem moral que lhe é necessária. A familiaridade estende os valores da confiança. (Conduta Espírita - André Luiz - cap. 24).
  • Falar aos comunicantes perturbados e infelizes, com dignidade e carinho, entre a energia e a doçura, detendo-se exclusivamente no caso em pauta. Sabedoria no falar, ciência de ensinar. (Conduta Espírita - André Luiz - cap. 24).
  • Em oportunidade alguma, polemizar, condenar ou ironizar, no contato com os irmãos infelizes da espiritualidade. A azedia não cura o desespero. (Conduta Espírita - André Luiz - cap. 24).
  • Suprimir indagações no trato com entidades infortunadas, nem sempre em dia com a própria memória, como acontece a qualquer doente grave encarnado. A enfermagem imediata dispensa interrogatório. (Conduta Espírita - André Luiz - cap. 24).
  • Há grande diversidade entre a tarefa de doutrinar e evangelizar. Para doutrinar, basta o conhecimento intelectual dos postulados do Espiritismo; para evangelizar é necessário a luz do amor no íntimo. Na primeira, bastarão a leitura e o conhecimento: na segunda é preciso vibrar e sentir com o Cristo. (O Consolador - perg. 237 - Emmanuel).

Do livro: Mediunidade - União Espírita Mineira

quinta-feira, 22 de março de 2012

A Religião dos Homens e a Religião de Deus


A Religião dos Homens e a Religião de Deus
"Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e aborrecerás ao teu inimigo. Eu porém vos digo: Amai aos vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque Ele faz nascer o seu Sol sobre os bons e sobre os maus, e vir suas chuvas sobre os justos e injustos. Porque, se amardes aos que vos amam,
que recompensa tendes? Não fazem os publicanos o mesmo? E se saudardes somente aos vossos irmãos, que fazeis de especial? Não fazem os gentios também o mesmo? Sede vós, pois, perfeitos, como o vosso Pai celestial é perfeito". (Mateus, V, 43-48. )
"Mas os fariseus, sabendo que Jesus fizera calar os saduceus, reuniram-se; e um deles, doutor da lei, para o experimentar, fez-lhe esta pergunta: Mestre, qual é o grande mandamento da lei? "Respondeu-lhe Jesus: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo semelhante a este é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Estes dois mandamentos resumem toda a lei e os profetas".
(Mateus, XXII, 34-40. )
A religião dos homens não é a religião de Deus. A religião dos homens se resume nos sacramentos: batismo, confissão, crisma, matrimônio, missas, extrema-unção, procissões, festas, dias-santos.
A religião de Deus é caridade, misericórdia, paz, paciência, tolerância, perdão, amor a Deus, amor ao próximo.
A religião dos homens é misericórdia sujeita ao numerário.
A religião de Deus está isenta do dinheiro do mundo.
A religião dos homens circunscreve a razão e o sentimento, prescrevendo a ignorância; não admite a evolução.
A religião de Deus reclama o estudo e proclama o progresso.
A religião dos homens consiste em dogmas e mistérios que a consciência repele e o sentimento repudia.
A religião de Deus derruba as barreiras do sobrenatural e afirma que nunca disse, nem dirá a última palavra, porque é de evolução permanente.
A religião dos homens escraviza as almas, escraviza a inteligência, anula a razão, condena a análise, a investigação, o livre-exame.
A religião de Deus manda ao indivíduo, como Paulo, examinar tudo, crescer em todo o conhecimento, fazer o estudo crítico do que lhe for apresentado para separar o bom do mau e não ter tropeço no "dia do Cristo".
A religião dos homens não tem espírito: para ela o Evangelho é letra-morta, não tem a palavra de Jesus; seus santos são de pau e barro; suas virtudes, de incenso e alfazema; suas obras são folguedos, festanças com alarido de sinos, de foguetes, de fanfarra; seus ornamentos, de fitas e papéis de cores.
A religião de Deus é vivificada pelo Espírito da vida eterna, é acionada pelas Revelações sucessivas, baseia-se na palavra de Jesus, nos Evangelhos, nas Epístolas Apostólicas. Seus santos são espíritos vivos, puros, ou que se estão purificando e que vêm comunicar-se com os homens na Terra, para guiá-los à verdade; suas virtudes são as curas dos enfermos operadas por esses Espíritos, as manifestações de materializações, de transportes, de fotografia, que vem dar a certeza da imortalidade e
estabelecer a verdadeira fé.
A religião dos homens é a aflição, o desespero, a morte; ao doente ela só oferece a confissão auricular; ao agonizante a extrema-unção e depois da morte o De-Profundis com as subseqüentes missas, que constituem um gravame eterno para a família do morto.
A religião de Deus é a consolação, a esperança, a vida: ao doente dá remédios, fluidos divinos para lenir o sofrimento; ao agonizante desvenda o reino da imortalidade e afirma o prosseguimento da vida independente da vida na Terra; dá de graça a misericórdia, cerca o paciente de amor e a todos recomenda a oração gratuita como meio de auxiliar os que sofrem.
A religião dos homens é composta de uma hierarquia que começa no pequeno cura de aldeia para se elevar através das dignidades de cônego, monsenhor, bispo, arcebispo, cardeal, ao caporal maior, o Sumo Pontífice Infalível, o
Papa; cada qual se distingue pela tonsura, vestimenta, rubis, pedrarias de esmeraldas, brilhantes, diamantes e roupagens de seda, de púrpura, de holanda: obrigando o hábito a fazer o monge.
A religião de Deus é ministrada pelo Espírito, por intermédio dos dons espirituais de que fala o grande apóstolo da luz em sua gloriosa Epístola, hoje de divulgação mundial; ela não distingue o religioso, o cristão, pelo hábito, pela opa, pela batina, pelos anéis, pela coroa, pela mantilha, pelos rosários, pelas medalhas, pelas cruzes, porque qualquer tartufo ou "tartufa" pode usar essas insígnias; mas reconhece o cristão, o religioso pelo caráter, pelo critério, pela fé que dele emana, pela caridade que o
caracteriza, pela esperança não fingida que manifesta.
A religião dos homens persegue, anatematiza, odeia e calunia os que são descrentes.
A religião de Deus perdoa, ora, auxilia, serve e ampara seus próprios perseguidores, detratores, caluniadores e adversários.
A religião dos homens se ilumina à luz do azeite, da cera, da eletricidade.
A religião de Deus é a luz do Mundo e de todo o Universo. A religião dos homens é insípida, corruptível; usa o sal material.
A religião de Deus é o sal da Terra: conserva, transforma, purifica.
A religião dos homens tem igrejas de pedra, de terra, de cal, de ferro, de madeira.
A religião de Deus tem por igreja, como disse o apóstolo, almas, Espíritos vivificantes.
As igrejas dos homens são de matéria inerte, caem ao embate dos ventos, das tempestades, das correntezas.
Contra a Igreja de Deus os elementos não prevalecem; ela é imperecível e se nos mostra cada vez mais viva, mais luminosa.
A religião dos homens é a opressão, o orgulho, o egoísmo, a mercancia.
A religião de Deus é a da liberdade, da humildade, do amor, do desinteresse. A religião dos homens não é a religião de Deus: a religião dos homens é a dos homens e para os homens.
A religião de Deus é a luz universal que proclama a verdade, o caminho e a vida, repetindo a palavra do incomparável sábio e santo, Jesus o Cristo: Amai os vossos inimigos; orai pelos que vos caluniam; que a vossa justiça seja maior que a dos escribas e fariseus; amai a Deus e ao próximo, porque neste amor se fundam a lei e os profetas; sede perfeitos como perfeito é o
vosso Pai celestial!
(Caibar Schutel)

quarta-feira, 14 de março de 2012

A Casa Espírita e os Problemas Sociais


A Casa Espírita e os Problemas Sociais
A ação social é sem dúvida o melhor instrumento para a terapêutica espírita, possibilitando a vivência prática de nossas conquistas e a transmissão do conhecimento adquirido aos nossos irmãos necessitados.

O tema mais constante hoje, em todas as conversas, é a violência física, moral e intelectual que invade nossos lares, transforma nossos hábitos e modifica nossas vidas.

Buscando refletir sobre o tema encontrei, nas palavras de Joana de Angelis, um caminho para reflexão:

“A volúpia pela velocidade, em ânsia indomada de desfrutar-se mais prazer, ganhando-se o tempo, que se converte em verdadeiro algoz dos sentimentos e das aspirações, vem transformando o ser humano em robô, que perdeu o sentido existencial e vive em função das buscas, cujas metas nunca são conseguidas, face à mudança que se opera no significado de cada uma”.

Sem dúvida nos robotizamos atrás de um “PRAZER” efêmero e sem rumo e que nos joga em um emaranhado de conflitos e frustrações.

“A super-população das cidades, desumanizando-as, descaracteriza o indivíduo, que passa a viver exclusivamente em função do poder que pode oferecer comodidade e gozo, considerando as demais pessoas como descartáveis, pelo receio que mantém de ser utilizado e esquecido, em mecanismo inconsciente sobre o comportamento que conserva em relação aos outros”.

O PODER, como meta e objetivo, vivemos de perto esse processo, quando nos envolvemos nos meandros da corrupção, ativa ou passiva, e nos permitimos levar pela ganância, pelo orgulho e pelo ego-centrismo exarcebado.

“O Egoísmo passa a governar a conduta humana, e todos se engalfinham em intérmina luta de conquistar o melhor e maior quinhão, mesmo que isso resulte em prejuízo calculado para aqueles que partilham do seu grupo social”.

“Nesse campo, eivado dos espinhos da insensibilidade pela dor do próximo, pelo abandono das multidões esfaimadas e enfermas, pelo desconforto moral que se espraia, os valores éticos, por sua vez, passam também a ser contestados pelos que se consideram privilegiados, atribuindo-se o direito de qualquer conduta que o dinheiro escamoteia e a sociedade aceita”.

Não é exatamente a realidade que vivemos, no momento político em que estamos mergulhados, nas relações sociais e profissionais que vivenciamos, e muitas vezes no seio de nossas próprias famílias?

A inversão de conteúdos psicológicos individuais e coletivos demonstra a imaturidade moral e ritual espiritual de indivíduos e grupos sociais, cujos objetivos existenciais vinculados durante a formação da personalidade, no utilitarismo, na conquista do poder para usufruir, na construção do ego que se insensibiliza, a fim de fugir à responsabilidade dos deveres da solidariedade e da participação.

A falência dos valores é inegável, tornando-se inadiável uma mudança filosófica e de conduta psicológica humana.

A Meta da Casa Espírita é a Edificação dos Valores, através do estudo continuado e do exemplo na conduta pró-ativa de seus membros.

A Assistência Fraterna deve se desenvolver dentro de uma proposta Informativa e Formativa, possibilitando a diminuição das carências do momento, ao mesmo tempo que orienta e possibilita condições para que próximas crises possam ser de menor intensidade e que os companheiros tenham maior estrutura para enfrentá-las.

O desenvolvimento das atividades deve estar essencialmente focado no trabalho de educação preventiva e profilática, possibilitando a criação de importantes fontes de disseminação do bem.

Sobre esses conceitos, nos diz Joanna de Angelis:

“Aprendamos lidar com o desequilíbrio social e sua decorrência, drogas, alcoolismo, violência, sexolatria, desagregação da família etc, e possibilitarmos aos nossos irmãos o apoio necessário, nos exige uma profunda reflexão pessoal e institucional, que propicie a validação dos valores que abraçamos e a avaliação de nossa conduta, enquanto indivíduos, enquanto membros de uma comunidade e principalmente enquanto participantes de um movimento ritual'espiritual/assistencial”.

Enfrentar os nossos medos, dúvidas e ansiedades, avaliar a nossa conduta pessoal, familiar, profissional e social, aprendermos trabalhar em equipe e solidariamente, encararmos nossa vaidade, orgulho, ambição,preconceitos, comodismo, orgulho. 
Sermos coerentes com a filosofia doutrinária que abraçamos. 
São os primeiros passos para enfrentar o desequilíbrio social e começarmos a criação de uma sociedade mais justa e mais humana.

A Casa Espírita, em sua missão, nos propicia um dos mais sérios e importantes processos terapêuticos, em que somos acompanhados por terapeutas fraternos e pacientes sempre prontos a nos auxiliar e com uma enorme paciência em nos ouvir e nos estimular a melhora, sem nos impor comportamentos, mas nos convidando sempre à reflexão.

A ação social é sem dúvida o melhor instrumento para essa terapêutica, possibilitando a vivência prática de nossas conquistas e a transmissão do conhecimento adquirido aos nossos irmãos necessitados.

Mas frente à enorme demanda da sociedade, necessitamos integrarmo-nos aos companheiros de movimento de forma ativa e objetiva, para que possamos atender à mesma, e principalmente sermos ativos junto à comunidade em que estamos inseridos, participando dos seus movimentos e apoiando os serviços que ela oferece no sentido da promoção social.

Não podemos e nem devemos estar isolados de todo o movimento social que tenha como proposta uma sociedade mais justa e que lute pela erradicação da ignorância, pelo atendimento à saúde, pela requalificação profissional, pelo exercício honesto e construtivo da cidadania.

Unamo-nos nesse esforço pela Fraternidade e pela Esperança e tornemo-nos trabalhadores da Caridade, gerando a profilaxia do mal e construindo a ideologia do AMOR.

terça-feira, 13 de março de 2012

O Espiritismo , não é obra de romance.


O Espiritismo , não é obra de romance.

Por José Herculano Pires
A mediunidade dinâmica não permanece em êxtase no organismo do médium. Não age de maneira discreta e sutil, como a mediunidade estática. Pelo contrário, extravasa agitada em fenômenos de captação e projeção, não raro explodindo em casos obsessivos. É a chamada mediunidade de serviço, destinada ao auxílio e ao socorro do próximo. Decorre de compromissos assumidos no plano espiritual, seja para auxiliar indiscriminada-mente os que necessitam de ajuda e orientação, seja para o resgate de dívidas morais do passado com entidades necessitadas, cujo estado inferior se deve, em parte ou totalmente, a ações do médium em vidas anteriores. O médium não desfruta apenas as vantagens da mediunidade generalizada, pois se vê investido de uma missão mediúnica a que os Espíritos deram o nome de mediunato.
A situação do médium é bem diferente da comum. Ele é continuamente solicitado para atender a entidades desencarnadas carentes de auxílio e elucidação. Se rejeita o seu compromisso ou tenta protelá-lo fica sujeito a perturbações e final-mente à obsessão. O mediunato lhe foi concedido para reparar os erros do passado e recuperar os espíritos que pôs a perder, levou à descrença e até mesmo à revolta em vidas passadas. Não obstante o determinismo implícito no mediunato, o seu livre-arbítrio continua intacto. Assim como escolheu e pediu essa situação ao voltar à encarnação, por sua livre vontade, assim também poderá agora optar pelo cumprimento da missão ou pela sua rejeição, arcando naturalmente com as conseqüências da fuga ao dever.
O mediunato é também concedido em casos de pura assistência ao próximo e ajuda à Humanidade, como nos mostra o exemplo histórico das meninas Boudin, Julia e Carolina, em Paris, cuja mediunidade admirável garantiu o êxito da missão de Kardec.
Mas o próprio Kardec não era médium, porque a sua missão era científica e não mediúnica. Cabia-lhe estudar e pesquisar a mediunidade para desdobrar a incipiente cultura terrena, revelando aos cientistas a face oculta da Natureza, a realidade desconhecida do outro mundo que eles não percebiam e quando percebiam não aceitavam.
As meninas Boudin, que estavam com apenas 14 e 16 anos, foram os instrumentos mediúnicos de que ele se serviu para a elaboração da Doutrina। Interrogava os espíritos através delas, aceitava ou rejeitava o que diziam, discutia livremente com eles e observava outros médiuns, como a Srta. Jafet, Didier Filho, Camille Flammarion, Victorien Sardou e muitos outros. Não era um profeta, nem um vidente ou Messias: era um pesquisador incansável e exigente. A volumosa, minuciosa e inabalável obra que deixou, formando um maciço de mais de vinte volumes de quatrocentas páginas em média, mostra porque ele não podia dispor de um mediunato. Tinha de dedicar-se inteiramente, como se dedicou até à exaustão, ao trabalho intelectual. E grandiosa a epopéia humilde desse homem, pesquisador solitário de uma ciência que todos combatiam e ridicularizavam. Se não estava investido de mediunato, dispunha da intuição em alto grau, de um bom-senso que lhe permitiu solidificar e estruturar a doutrina em bases seguras e vencer facilmente as mais sofisticadas investidas dos intelectuais, dos sábios, dos ateus e materialistas, das academias e instituições culturais, das igrejas e dos teólogos, mostrando-lhes com serenidade e clareza meridiana os erros temerários em que incidiam. A mediunidade estática lhe permitia, nos últimos anos de trabalho, ser advertido diretamente pelos espíritos de lapsos ocorridos em seus escritos, como se pode ver em suas anotações publicadas em Obras Póstumas. Se os homens não fossem tão estúpidos, como demonstrou Richet em L’Homme Stupide, teriam poupado Kardec dos muitos dissabores e das muitas lutas que teve de sustentar.
Para se compreender melhor a razão pela qual Kardec não teve um mediunato, basta lembrar o caso de Swedenborg na Suécia e de Andrew Jakson Davis nos Estados Unidos. O primeiro era um dos maiores sábios do século XVIII, amigo de Kant e foi um precursor do Espiritismo. Mas, dotado de extraordinária vidência, perdeu-se nas suas próprias visões, fascinado pela realidade invisível, e acabou criando uma seita eivada de absurdos. O segundo era também vidente e lançou uma série de livros em que o fantástico supera as possibilidades do real.
Kardec pôde realizar seu trabalho com firmeza porque não quis ser mais do que homem, como dizia Descartes, permanecendo com os pés no chão e examinando todas as manifestações espirituais com o mais rigoroso critério científico.
Os fenômenos mediúnicos são os mais difíceis de se examinar com frieza. O médium não escapa aos impactos emocionais dessas manifestações, como Kardec viu no próprio exemplo de Flammarion. Por outro lado, a condição de médium o tornaria suspeito aos olhos desconfiados dos homens de ciência. Sua posição firme no campo cultural e nas áreas de pesquisa, que lhe valeram o louvor de Richet e o respeito de Crookes, Zöllner e outros cientistas conscienciosos, e principalmente sua lógica poderosa o livraram dos perigos que ele mesmo apontava no tocante à complexa e fascinante problemática do Espiritismo. Tinha de falar aos homens como homem, e assim o fez, com a linguagem humana dos que buscam a verdade.
Mesmo no meio espírita o critério de Kardec ainda não foi suficientemente compreendido.
Muitos censuram o seu comedimento em tratar de assuntos melindrosos da época. Não entendem o valor de O Livro dos Médiuns e vivem à procura de novidades apresentadas em obras mediúnicas suspeitas.
Não percebem que o problema mediúnico só agora pode ser tratado cientificamente com mais desembaraço, graças ao avanço das ciências nos últimos anos. Poucos entendem o critério modelar de uma obra difícil como A Gênese e de um livro como O evangelho Segundo o Espiritismo, em que as questões explosivas da fé irracional e das influências mitológicas teriam de ser contornadas. Nas mãos de um vidente esses livros não poderiam ser escritos com a clareza racional em que o foram, porque as visões místicas influiriam na sua elaboração.
A vidência, como todas as formas de mediunidade, pode ocorrer ocasionalmente a qualquer pessoa, mas a sua ação permanente, nos casos de mediunato, pode bloquear a razão e excitar o misticismo. Nesses casos o místico está sujeito a enganos fatais.
O espírito encarnado está condicionado à vida do plano material, não dispondo de segurança para lidar com os problemas do plano espiritual. Mas a vaidade humana leva os videntes a confiarem nas suas percepções, pois isso os coloca acima dos outros.
No desdobramento, com fins de pesquisa no outro plano, esse problema se agrava, pois o deslocamento do espírito para um campo de ação que não é o seu, durante a encarnação, o coloca no plano espiritual como um estrangeiro que precisaria de tempo para ajustar-se a ele. Por isso Kardec preferiu o estudo e a investigação através das manifestações mediúnicas, onde é possível controlar-se a legitimidade das informações dadas pelos próprios habitantes do plano espiritual.
Richet levantou o problema do condicionamento da vidência à crença do vidente. Frederic Myers demonstrou que a nossa mente está condicionada para a interpretação das percepções sensoriais.
A consciência supraliminar, onde funciona a nossa mente de relação, está voltada para as condições do mundo em que vivemos. A consciência subliminar, que equivale ao inconsciente, destina-se a funcionar normalmente na vida futura, ou seja, no plano espiritual. Kardec observou tudo isso com rigor, através de pesquisas incessantes, nas comunicações mediúnicas de espíritos encarnados, como se pode ver nos relatos de suas pesquisas publicados na Revista Espírita. Os próprios espíritos recém-desencarnados referem-se sempre às dificuldades que enfrentam para adaptar-se às condições do mundo espiritual. É pois, uma temeridade confiar-se na vidência para estabelecer novos princípios ou sistemas de prática espírita. A vidência auxilia nas pesquisas, mas não pode ser o seu instrumento único.
Os videntes que se colocam na posição de conhecedores absolutos do outro mundo, esquecendo-se de que o seu equipamento sensorial e mental pertence a este mundo, e se apresentam na condição de mestres e reformadores da doutrina enganam-se a si mesmos e enganam aos outros.
Pode-se alegar a existência do mediunato da vidência. Mas esse mediunato jamais é concedido para as aventuras de espíritos de vivos no plano espiritual, porque isso seria condenar o médium a uma situação de dualidade perigosa na vida terrena. O mediunato da vidência existe, mas para fins de auxílio às pesquisas ou para demonstrações da verdade espírita, mas nunca para a criação de condições anômalas no campo mediúnico. As próprias obras mediúnicas, psicografadas, que descrevem com excesso de minúcias a vida no plano espiritual, devem ser encaradas com reserva pelos espíritas estudiosos.
Emmanuel explica, prefaciando um livro de André Luiz, que o autor espiritual se serve de figuras analógicas para explicar fatos e coisas que não poderiam ser explicados de maneira fidedigna em nossa linguagem humana.
São perigosas as duas posições extremadas: a dos que não aceitam essas obras como válidas e a dos que pretendem substituir por elas as obras de Kardec.
Os princípios da Codificação não podem ser alterados pela obra de um espírito isolado. A Codificação não é obra de vidência, mas de pesquisa científica realizada por Kardec sob orientação e vigilância dos Espíritos Superiores.
Estamos numa fase de rápidas transformações de conceitos e valores, mas não devemos esquecer que os conceitos e os valores do Espiritismo não se restringem ao momento atual. São conceitos e valores destinados à nossa preparação para o futuro, de maneira que não estão peremptos.
De tudo isso resulta um acréscimo da responsabilidade espíri-ta para todos os que se deixam levar pela fascinação das novidades. O Espiritismo é um campo de estudos difícil e melindroso, em que não podemos descuidar um só instante da bússola da razão. Ao tratar de assuntos espíritas estamos agindo num campo magnético em que se digladiam as forças do bem e do mal. Nem sempre sabemos distingui-las com segurança e podemos deixar-nos levar por correntes de pensamento desnorteantes. A vaidade, a pretensão, o orgulho humano sempre vazio e fácil de ser levado pelos ventos da mistificação, o desejo leviano de nos diferenciarmos da maioria, a ambição doentia e tola de nos fantasiarmos de mestres podem levar-nos à traição à verdade.
A obra de Kardec é a bússola em que podemos confiar. Ela é a pedra de toque que podemos usar para aferir a legitimidade ou não das pedras aparentemente preciosas que os garimpeiros de novidades nos querem vender.
Essa obra repousa na experiência de Kardec e na sabedoria do Espírito da Verdade. Se não confiamos nela é melhor abandonarmos o Espiritismo.
Não há mestres espirituais na Terra nesta hora de provas, que é semelhante à hora de exames numa escola do mundo. Jesus poderia nos responder, diante da nossa busca comodista de novos mestres, como Abraão respondeu ao rico da parábola: “Porque eu deveria mandar-vos novos mestres, se tendes convosco a Codificação e os Evangelhos?”.
A mediunidade dinâmica do mediunato exige o nosso esforço contínuo na luta para sustentação da verdade espírita no mundo. Mas ninguém se esquiva sem graves conseqüências ao dever da vigilância. Os espíritos mistificadores contam apenas com dois pontos de apoio para nos envolverem: a vaidade e a invigilância. É mais fácil a eles se aproximarem de nós e conquistar a nossa atenção, do que aos espíritos esclarecidos nos socorrerem com suas intuições ponderadas. Estamos num mundo de provas e de expiações, somos espíritos em evolução, na maioria repetidores de encarnações fracassadas. Nosso livre-arbítrio não pode ser violado, mas quando aceitamos as mistificações de pretensos reformadores usamos o livre-arbítrio na escolha infeliz que então fazemos. Este é um ponto importante de doutrina em que devemos pensar incessantemente. Nossa responsabilidade no tocante ao mediunato não nos permite leviandade alguma que não tenha um preço a pagarmos no presente ou no futuro. Num ambiente mediúnico dominado pelo desejo de novidades e pela expectativa do maravilhoso, estamos sujeitos sempre a nos embriagar com o vinho das ilusões. O principal dever dos médiuns resume-se em duas palavras: fidelidade e vigilância.
Se não formos fiéis à doutrina e não estivermos sempre vigilantes às ciladas das trevas, estaremos sujeitos a seguir o caminho dos falsos profetas da Terra e da erraticidade, que o cego da parábola levará ao barranco para cair com ele.