sábado, 3 de março de 2012

O Que é Pureza Doutrinária?


O Que é Pureza Doutrinária?
 (Alerta aos atuais e futuros dirigentes de casas espíritas) Newton Monteiro
 ARYLEX E HERCULANO PIRES Solicitado a tecer considerações sobre o que seja Pureza Doutrinária ofereço, a quem possa se interessar, algumas considerações exemplificativas, que certamente não darão resposta a todas as dúvidas a respeito, lembrando que o tema foi abordado por Ary Lex em sua obra “Pureza Doutrinária”, o qual eu conheci de perto, pois foi meu instrutor por diversos anos em cursos doutrinários na UMESP, a quem sou imensamente grato e muito devo na formação espírita, porém é de se comentar que quem se destacou abordando esse mesmo tema, na teoria e na prática, foi Herculano Pires, cognominado “O Kardec Brasileiro”, a quem também devo reconhecimento por ter me atendido pessoalmente a respeito de questões correlatas. Na minha formação sou ainda grato a dezenas de outros renomados instrutores da doutrina espírita dentre os quais destaco Pedro de Camargo-Vinicius, Emilio Manso Vieira, Luiz Monteiro de Barros, Nancy Pullmann, Eurípedes de Castro, Benedito Godoi Paiva, Julio de Abreu, Apolo Oliva Filho, PauloAlves de Godoi e dezenas de outros. Mesmo assim, há cerca de 40 anos atrás, tive uma visão distorcida do que seja pureza doutrinária, chegando a criticar Herculano Pires quando presenciei reunião mediúnica no Centro Espírita que ele orientava. Assunto bastante complexo...
UMA INTERPRETAÇÃO DE PUREZADOUTRINÁRIA Para aplicar a Pureza Doutrinária, no máximo possível sem distorções, devemos alargar as dimensões do nosso raciocínio em busca da razão, da lógica, para concluirmos se não estamos interpretando Pureza Doutrinária, com desvios semelhantes de outras doutrinas. Basta consultar a história da Igreja, onde a interpretação e aplicação da Pureza Doutrinária resultaram na perseguição e morte de médiuns atirados em óleo fervente, condenação do Espiritismo, queima de obras espíritas em praça pública, acusação dos espíritas como possuídos pelo demônio, proibição dos fiéis de colocarem os pés num centro espírita, excomunhão de quem consultasse O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Espíritos e demais obras de Kardec. Com essa visão, não se desenvolve o senso de liberdade consciente, mas proíbem-se iniciativas e se impõe disciplina sob comando autoritário. Tudo em nome de Pureza Doutrinária. Devemos consultar Herculano Pires em “O Centro Espírita”, inclusive quando aborda o tema Disciplina Fraterna. Ary Lex condena Ramatís, porém só o fez depois de consultar suas obras e o mesmo devem fazer os instrutores que queiram esclarecer seus alunos sobre os desvios de obras consideradas em desacordo com os princípios kardequianos como, além de Ramatís, Roustaing, Pietro Ubaldi, Krishnamurti, teosofistas e esotéricos, etc. Também Saulo, posteriormente Paulo de Tarso, arraigado a falsa interpretação de Pureza Doutrinária, e impondo disciplina autoritária e não fraterna, como recomenda Herculano Pires, perseguiu, condenou cristãos e levou Estevão à morte por apedrejamento.
DIVULGAÇÃO DO MAL E POR CAUSA DO “MAU” No meio espírita encontramos distorções menos contundentes e alguns dirão, baseados em André Luiz, que “o mal não merece comentário em tempo algum”. Diz Kardec que isto é verdade quando apontamos erros pessoais, mas sempre que houver um prejuízo de ordem geral, social, que iluda pessoas desavisadas, a verdade deve ser posta às claras. Temos exemplos na consagrada obra “Aconteceu na Casa Espírita”, inclusive adaptada ao teatro espírita, que não dissimula a realidade. Consagrados líderes espíritas, momentaneamente envolvidos por uma distorção do que seja Pureza Doutrinária, incorreram em graves erros. Temos como exemplo o fato de iluminado intérprete das parábolas de Jesus, renomado autor e conferencista, ter adulterado a tradução de O Evangelho Segundo o Espiritismo e ter convencido a diretoria de uma das maiores instituições espíritas brasileiras a publicar milhares de exemplares dessa obra adulterada, apesar de Herculano Pires ter feito veementes protestos pela imprensa, pelo rádio e em conferências públicas, tendo mesmo divulgado o poema O Evangelho e o Mundo, como semi-paródia da obra A Ceia dos Cardeais, de Julio Dantas, como um protesto contra a falsa Pureza Doutrinária. Essa adulteração foi feita a partir da interpretação de que Kardec exagerou ao afirmar que existem Espíritos “maus”, pois esses Espíritos são apenas “menos bons” (?!).
CONTRAPOSIÇÃO: PUREZA x INTRANSIGÊNCIA DOUTRINÁRIA Pela citação acima, e de outras constantes das obras citadas, somente podemos ter uma idéia real do que seja Pureza Doutrinária se nos valermos de idéias precisas sobre que seja: Bom senso doutrinário, Discernimento doutrinário. Em contraposição a: Intransigência doutrinária Intolerância doutrinária, Preconceito doutrinário, Fanatismo doutrinário.
PUREZA x PRESUNÇÃO DOUTRINÁRIA Experiência pessoal, ingressei em determinada organização espírita, que entregava aos alunos, na conclusão dos cursos, o título de Discípulo de Jesus. Os tais Discípulos de Jesus, pelo que verifiquei, julgam-se promovidos espiritualmente e alguns se envaideciam, passando a formar uma casta dos puros dentro da doutrina espírita. Antes de concluir tal curso, fui convidado por uma de minhas filhas, a presenciar sua formatura, quando receberia também um distintivo de Discípula de Jesus. Fui, no entanto, barrado à porta de entrada sob a alegação de que somente poderia assistir a reunião, quem fosse Discípulo de Jesus. Abandonei o curso. Os cursos eram ótimos, mas sua estrutura duvidosa porque adotava uma espécie de confessionário, constituído por uma cadernetinha preta onde o aluno devia confessar seus deslizes morais e ser avaliado por um instrutor. Essa estrutura foi criada com a melhor das intenções, mas feria o princípio da pureza doutrinária pelos dogmas instituídos. Criou-se em torno desse aparato um endeusamento de seu criador, denominando-o “comandante”, e a respeito dizia Herculano Pires: O Espiritismo não tem comandantes. De minha parte, cito que há mais de 40 anos atrás, minha primeira esposa e eu, incorporamos um fanatismo doutrinário ao aderirmos a uma obra que se dizia constituída dos seiscentos da Galiléia e que a obra resgataria a infância abandonada do Brasil. Comentei com Herculano Pires a grandeza desse projeto, que já contava com vasta área em belíssimo planalto do Brasil Central, e ele simplesmente me respondeu: essa obra é uma utopia. Persisti, em decorrência passei por grande sofrimento moral. Enviuvei, persisti ainda já em segundas núpcias, aceitando o cargo de vice presidente da cidade que acolheria as crianças abandonada, tive grandes decepções, afastei-me do projeto sendo considerado pelos elementos remanescentes de que eu e minha esposa estávamos envolvidos em grave processo obsessivo. No entanto, já decorridos mais de 15 anos, recebi um relatório onde uma ex-integrante da cidade afirmou que até aquela altura a cidade ainda não havia adotado uma única criança abandonada, apenas dando assistência a crianças das redondezas. Todos integrantes dessa organização são espíritas bem intencionados, mas àquela época julgavam-se predestinados a uma grande obra de renovação social, mas sem o alicerce das fundamentais bases da Pureza Doutrinária: a humildade e o discernimento. Sabemos que em centro espírita de grande cidade paulista um bem conhecido dirigente e escritor aboliu a prática da prece, no que está sendo acompanhado por cerca de 70 % dos Centros Espíritas da região (segundo informação de meu prezado Marco Antonio). Afirmam eles que Deus sabe do que necessitamos e que assim é perda de tempo fazer preces. E isso eles pregam em nome da pureza doutrinária. Outras instituições espíritas condenam a prática da doutrinação de Espíritos, alegando que nossos PUREZA x FANATISMO DOUTRINÁRIO PUREZA x ARROGÂNCIA DOUTRINÁRIA mentores executam essa tarefa com maior conhecimento de causa e eficiência. Por isso que neste tema deve sobressair o bom sendo e o discernimento de Herculano Pires. PUREZA x PRECONCEITO DOUTRINÁRIO Não desejo escaramuçar feridas. Apenas citar fatos que nos façam parar para pensar. Outro deles, por falsa interpretação sobre Pureza Doutrinária, trouxe como conseqüência a interdição por vários meses, aos domingos, de grande casa espírita, por ordem judicial, decorrente de disputa pelo poder. Nessa mesma instituição em que colaborei por 60 anos, direta ou indiretamente, juntamente com os demais instrutores de Esperanto, fomos impedidos de prosseguir colaborando por não termos em mãos certificados de conclusão dos seus cursos doutrinários. Em decorrência, foram prejudicados centenas de alunos que tiveram suas matrículas canceladas, inclusive porque houve a exigência de que só poderiam ser admitidos como alunos se declarassem ser espíritas. Diríamos agora: Com base na Intransigência Doutrinária. No entanto, Chico Xavier, católico, foi admitido como médium a partir de seus 5 anos de idade e, sem cursos e certificados doutrinários. Foi um exemplo de dedicação cristã, um seareiro ativo desde 17 anos de idade, embora não possuísse certificados de conclusão de cursos espíritas. O leitor dirá: “Mas era o Chico!”. Porem àquela altura quem visualizaria o Chico do futuro? Só mesmo os de bom senso e discernimento. Afirmou o mentor Clarêncio: Em nosso Plano Espiritual a burocracia é a do Amor. Os requisitos principais para exercer a tarefa espírita são o potencial e a bagagem que o colaborador traz em seu acervo espiritual, não apenas de hoje, mas também após preparar-se por décadas antes de encarnar-se, com certificados na pasta fluídica de documentos. REQUISITOS DO COLABORADOR SEGUNDO ARYLEX Na convivência com Ary Lex, aprendi que a Pureza Doutrinária deve levar em conta o potencial do colaborador, sua dedicação ao estudo e a boa vontade, sem preocupação de pré-requisitos formais apoiados em certificados de conclusão de um determinado estágio, que pode até ter sido concluído sem que o colaborador apresente a mínima condição de exercer a tarefa. Ary Lex, com a visão sem preconceitos e intransigências, introduziu seus pupilos na tribuna da FEESP, onde, lembro-me bem, aos 17 anos de idade me foi dada a oportunidade de discorrer sobre obsessão e desobsessão na tribuna da FEESP. Bem antes, tive essa experiência pessoal ao ser conduzido, aos 12 anos de idade, a estudos do Evangelho e de O Livro dos Espíritos e participando de reuniões mediúnicas, inclusive de doutrinação, no C. E. Bezerra de Menezes, no Belenzinho, onde tive a felicidade de constatar Pureza Doutrinária exemplificada em médiuns, doutrinadores e dirigentes equilibrados, que até hoje enternecidamente me impressionam as lembranças, memorizando seus nomes: médium Dona Glorinha, presidente Ruy Gattás, diretora mediúnica a idosa Dona Laura e outros dedicados seareiros. Assimilei quanto pude o conteúdo doutrinário. Nenhuma dessas experiências doutrinárias me foi prejudicial, à semelhança do que disse Bezerra de Menezes ao ler Kardec, embora fosse católico: Penso que não irei ao inferno por ler estas obras. ONDE APUREZA? Pelo exposto, concluímos que a título de PUREZA DOUTRINÁRIA a história nos relata errôneas interpretações das quais decorreram desarmonias, deserções, imposições descabidas, avidez pelo poder, intolerâncias e intransigências doutrinárias, etc... Na leitura de Ary Lex, concluímos que a Pureza Doutrinária deve ser exemplificada pelos dirigentes da Casa Espírita. Quando ela não está incorporada a seus dirigentes, o sistema falha em seu todo. Complementa Divaldo Pereira Franco em sua obra “Diálogo com os Dirigentes”, quando a ele foi indagado: Por que faltam colaboradores nas casas espíritas? Ao que ele, em síntese, afirma que não faltam colaboradores nas casas espíritas, o que falta é LIDERANÇA. Quando existe liderança, os colaboradores são atraídos pelo carisma natural, são envolvidos em fraternidade, confiam na direção e colaboram espontaneamente. Onde a Pureza? Certamente na simplicidade e humildade, a mesma com que Jesus veio à Terra. Tomando pescadores incultos como discípulos, para transformá-los nos renovadores do mundo. Jesus, o GRANDE LIDER, soube aproveitar o potencial de seus discípulos incultos, aceitando até mesmo a colaboração de Judas, o discípulo iludido pela ambição, aquele mesmo que, no momento de ofertar o beijo da traição, escutou do Mestre a indagou: Amigo, a que vieste?

Nenhum comentário:

Postar um comentário