quarta-feira, 15 de agosto de 2012

LOBOS EM PELE DE OVELHA.

Leonardo Pereira

Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. (Mateus 7 v.15).

Jesus em suas palavras se referia diretamente aos doutores da lei e alcançava os judeus de forma geral e mais precisamente aos que se apresentavam com a máscara da bondade, da humildade, da retidão e do amor. Estes eram representados pela ovelha, um animal dócil e afável. Por outro lado, apresentava como a figura do lobo todos aqueles que agiam no orgulho, na soberba, nas sombras, tramando, desejando o mal, humilhando os seus semelhantes.
Estes verdadeiros lobos famintos de poder, de riqueza e de domínio sobre o outro, através da falsidade se impõem como criaturas perfeitas e desejosas de guiar as almas, ou melhor, seu rebanho de ovelhas para a salvação.

A bem da verdade, Jesus, um mestre por excelência, já conhecendo os espíritos ali reencarnados, sabendo da verdadeira natureza dos mesmos e de seus grandes males e ignorâncias - sendo o principal deles o orgulho do qual deriva a vaidade e o egoísmo - alerta o espírito viajor para a necessidade de mudanças. Contudo, essas mudanças não devem ser externas, aparentes, fingidas, mas sim de dentro para fora. Devem ser medidas, avaliadas, compreendidas, vivenciadas no dia a dia da religião e da sociedade.

Dois mil anos se passaram e a fala do pastor de almas anotada pelo evangelista nos parece atual, necessária e nos chama a fazer uma avaliação profunda e urgente.
É necessário sair do marasmo de nossas vidas, complicadas e cheias de dramas, removendo as mascaras criadas para a projeção na sociedade e mesmo para as relações familiares.

Ao longo de nossa esteira evolutiva criamos estas muitas máscaras, as quais volta e meia trocamos de acordo com as nossas necessidades.

Não podemos deixar de aproveitar o ensejo e citar aqui algumas delas: mascara de bonzinho, de amoroso, de humilde, prestativo, sem cultura, intelectual, honesto, fiel, dedicado, indulgente, doce, solidário. Estes são apenas alguns exemplos entre as tantas outras facetas que nós, os espíritos, apresentamos no campo da vida física, independente do sexo ou da sexualidade.

Essas "personas" invadem também as instituições religiosas de todas as denominações, e são muitas, umas bem recentes e outras tantas que se arrastam pelos séculos e séculos em práticas externas sem nenhuma reforma moral por grande parte de seus sacerdotes ou freqüentadores .

As instituições espíritas não estão isentas e essas máscaras estão presentes principalmente entre alguns de seus lideres que se julgam profetas de uma nova doutrina. Enraizados nos enganos do passado e no atavismo religioso adentram a Doutrina Espírita e querem de toda forma modificar os seus postulados. Em nome do espiritismo igrejeiro, pessoal, em benefício próprio, intentam fazerem das instituições e nas instituições o que bem entendem.

Tais indivíduos encontram-se desequilibrados, viciados, doentes da alma. São verdadeiras montanhas russas emocionais e estão moralmente arruinados, mas se mostram mascarados com as brumas do evangelho sem vivência real, sem a pratica, mostrando apenas a teoria.Trazem a fala vazia e parecem apenas rádios a transmitirem a mensagem do Cristo e da Doutrina Espírita, sem dela nada retendo para si mesmo.
Entretanto, ainda assim, confeccionam, com maestria e talento, diferentes máscaras, uma para cada situação, uma para cada pessoa.

Apenas para exemplificar, encontraremos em todas as religiões e nos centros espíritas: tiranos domésticos e aplicados trabalhadores da fé; infiéis nas relações e pregadores da moral e bons costumes; fofoqueiros e maledicentes e atenciosos e prestativos nas igrejas e casas espíritas; chefes enlouquecidos e vaidosos e humildes e servis nos palanques doutrinários, impacientes na vida e no reduto religioso calmos e mansos.

É claro que a máscara da calmaria e da mansidão nem sempre são mantidas em todos os momentos dentro das cúpulas do poder temporal, até mesmo na própria casa espírita, principalmente quando se trata de defenderem seus espaços de poder, de liderança, ou como preferem dizer, "seus cargos de diretoria". "Muitas vezes sem os encargos das tarefas, apenas com os "nomes" e as medalhas no peito, "eu sou"!

Nestas ocasiões as chagas da humanidade são bem representadas: orgulho total, vaidade sem medida e egoísmo desmesurado. Nestes momentos as peles de ovelhas caem e os lobos, famintos de poder e status, se lançam uns contra os outros.

Logo depois de entrar em combate, elavam o olhar aos céus e oram a Deus dizendo no final uma citação fatídica para o momento "Que assim seja".
Há tantos para mandar e poucos para servir, e todos que pensam e agem assim estão doentes e ainda não sabem e acabam por adoecer a instituição.

Não pode ser assim! "Que não seja assim"!

Nós, os lobos, precisamos buscar a melhora, modificar e compreender a oportunidade que nos é ofertada. Chegou à oportunidade de nos transformarmos domesticando o lobo que ruge em nós. As disputas por cargos, por diretorias, por quem sabe mais, quem faz mais, quem fundou a casa, quem lava, quem paga, tudo isso, cai no mesmo lugar.
Para os lobos espíritas o que interessa é quem manda e quem chegou primeiro, é a defesa do território, porque sem esse território "eu não sou ninguém, o centro é meu, ninguém tasca que eu vi primeiro".

Usamos a mascara da falsa humildade com sorrisos falsos, abraços sem calor e apertos de mão sem sentimentos. O que queremos é devorar, acabar com o outro, quando na verdade ele é como nós. Ele nos reflete, mas não queremos ver.

No julgamento que fazemos dos outros não enxergamos que só vemos neles o que somos, os lobos em pele de cordeiro. Como não temos coragem para enfrentar a nossa "fera" interna, desejamos destruir a outra, o outro, seus projetos, suas idéias, seus sonhos, sua vida.

Julgamo-nos católicos, protestantes e espíritas cristãos, mas não nos damos conta que ainda não conhecemos ao Cristo Jesus.

Somos doutores da lei e falsos profetas, e a afirmativa do Rabi da Galilea é mais atual que se pode pensar. Não é por acaso, que somos considerados os trabalhadores da última hora.

Aqueles que ficaram se espreguiçando na esteira do tempo, vendo a banda passar, esperando que a evolução chegue de fora, e de um minuto para o outro, "zaz", que fiquemos perfeitos, têm que compreender que infelizmente não é assim.

É necessário esforço e vontade, a evolução não vai dar saltos ou parar na esquina do tempo para nos esperar.

O seu momento é agora! O meu momento é agora!

Somos os últimos a aceitar a tarefa e viemos carregados de preconceitos, quase vergados sob o peso das latas de lixo que carregamos encarnação após encarnação.

Chega! É preciso vivenciar o espiritismo tão decantado e falado nas relações do dia a dia, em casa, principalmente "em casa".

Devemos usar de autenticidade, realidade e verdade nas relações do centro espírita, pois um centro espírita não é feito de paredes, de muitas salas, de grandes monumentos religiosos, mas é feito de pessoas, de convivência e de amor.
O nosso amor está em evolução e não somos perfeitos, mas, somos capazes de adquirir a perfeição, é só começar. Agora! Já!
Para tanto devemos usar de quatro ferramentas muito importantes:

• O bom senso para poder compreender qual de nós esta mais doente no momento e saber diferenciar os estados evolutivos, onde poderemos encontrar homens velhos agindo como crianças birrentas.

• O senso autocrítico para que possamos reconhecer nossas falhas e buscar pela melhora sem a autopiedade e o desculpismo reinante.

• O senso critico para que possamos avaliar as ações e projetos e não quem os conduz, aprendendo a eleger o melhor para todos e não mais o "meu" o "seu", e hora do nosso, dos nossos e para todos.

• E o senso de humor, pois sem ele, poderemos ser devorados pelos lobos da nova revelação que se encontram gentilmente prostrados nos cargos vitalícios ora considerados como "supra-sumos" doutrinários, onde ninguém é melhor para o "seu" lugar.

Parafraseando um texto que recebi pela internet, intitulado " A batalha dos lobos", onde um velho índio conversa com seu neto a respeito da grande batalha íntima que travamos entre o nosso lado bom e o lado mau, entre a sombra e a luz, o velho índio começa assim:

- A batalha é entre os dois lobos que vivem dentro de todos nós. Um é Mau: é a raiva, inveja, ciúme, tristeza, desgosto, cobiça, arrogância, pena de si mesmo, culpa, ressentimento, inferioridade, orgulho falso, superioridade e ego.
O outro é Bom: é alegria, fraternidade, paz, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé.

O neto pensou nessa luta e perguntou ao avô: - "Qual é o lobo que vence? "
O velho índio respondeu: - "Aquele que você alimenta!"

Que possamos não mais servir de alimento energético e ração para a alcatéia de lobos religiosos e sem religiosidade, dos lobos espíritas, famintos de poder. Falso e volátil, pois, não sabendo de nada, já aprendemos que tudo passa, tudo de bom e de ruim e o que fica de verdade é o que realmente eu sou, nos somos, eu faço, nos fazemos.

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